Perfeccionismo

Vocês não sabem o que é o peso do destino nas costas da mão direita a cada vez que se tenta tocar um novo acorde ou escrever um novo verso. Na mão esquerda nada pesa, pelo menos não ao se tocar violão. E no piano é bom que pese às vezes. Na verdade eu tampouco sei o que é esse tal peso, mas estou fazendo um draminha aqui em prol do entretenimento.

Na hora de inventar, tento resgatar aquela vontade louca, quase sexual, que prescedia cada brincadeira no quintal. Pegar uma caixa cheia de soldadinhos e robozinhos e já no caminho imaginar enredos e cenários para batalhas épicas. Ou então traçar na terra o circuito para a corrida de tampinhas vindoura. Aquilo sim era impulso artístico. E era para se chegar a algum lugar, por acaso? Claro que não. Digo, metafisicamente, pode ser que sim. Mas na prática, o fim era aquilo mesmo. E é isso que busco alcançar com a música. Porque com o fim sendo o próprio fim, e o que está no meio sendo o mais divertido, tudo se torna automaticamente transcendental.

Sou contra o perfeccionismo. Muitos artistas se dizem perfeccionistas, e via de regra essa afirmação vem com uma conotação autoindulgente, pra não dizer autobajuladora, como uma dica de excelência – que às vezes não possuem. Acho importante o capricho, o carinho, e o envolvimento acima de tudo. Mas aquela pela perfeição é uma busca vazia, e requer uma noção de ideal que acho difícil ter na música – sem significar limitar o resultado final dentro das próprias expectativas. Ou seja, buscar uma música perfeita é saber o que é uma música perfeita. Uma vez que isso é praticamente impossível, o mais corriqueiro é que antes limite-se o leque de resultados a que se quer chegar nessa busca pela perfeição. E aí perder riquezas pelo caminho é quase certo.

Prefiro as porralouquices. Não todas. Ou quase nenhuma (será que prefiro nada a nada?). Mas aí é possível alcançar os céus sem querer, quiçá esbarrar com Deus, ou trombar com o diabo.

Admiro o arriscar-se, os pequenos saltos no escuro. Os passos são isso, afinal. Cada um a iminência de um desastre, para o seguinte ser a salvação e o próximo conflito. (Li isso em algum lugar. Se alguém souber onde, me fale onde foi, por gentileza).

Então tá. Caminhar é importante. Mais importante que chegar. Até aí entendi o bastante, acho. Mas será que caminhar tem que ser pra frente?

ps – isso me lembra um velho questionamento que tenho desde os tempos das aulas de história. Por que é que a linha da história é da esquerda pra direita? Pense num passado bem distante: as invasões bárbaras sobre Roma, por exemplo. Ele não está à esquerda, aí no fundo da sua mente? Na minha está, junto com os dinossauros, Cleópatra, Napoleão… Na maioria das pessoas a quem perguntei também. Tudo bem, sei que é como a escrita, uma linha da esquerda pra direita, mas como é que isso fica tão fixado na mente, a ponto de eu pensar na Nefertiti sempre do meu lado esquerdo?! Pô, queria poder ver a Nefertiti de todos os ângulos!!! Será que os japoneses, que escrevem da direita para a esquerda, vêem o passar do tempo nesta direção? Além disso, para mim tudo muda quando chegamos no século XX. O século XX é um plano inclinado na minha cabeça, como quando inclinamos um caderno perto da linha dos olhos. Quanto mais longínquo da linha dos meus olhos e mais perto do horizonte, mais ao passado está aquele evento. A primeira e a segunda guerra estão lá perto do horizonte, no alto da página do meu caderno inclinado. Por ali também estão o Picasso e o Hemingway tomando umas em Paris. Diretas Já e o Collor, e aquela vez no recreio que empurrei o meu melhor amigo e ele se estatelou no chão me enchendo de remorso, isso tudo já está aqui bem mais perto dos meus olhos. Nesse caso, sou eu quem está escrevendo nesse caderno? Tomara, vai! Pelo menos uma linhazinha de quando em vez.

ps2 – minha geometria mental ainda não alcançou o século XXI.

ps3 – Feliz 2009!!!