Sobre os ombros de gigantes

Meio sem notar, estava lendo ao mesmo tempo biografias de dois gigantes da música, desses que não se deve ter pudor nenhum de chamar de gênios. A autobiografia de Miles Davis e uma biografia de Beethoven.

Certa hora, Miles Davis conta o quanto lutou contra a mentalidade de gueto que imperava, até mesmo entre os negros mais engajados politicamente, nos anos 1940 nos EUA. Ele, que teve uma formação de classe alta muito incomum (seu pai tinha formação universitária e era um dentista respeitado em sua cidade), não se conformava quando ouvia de seus colegas jazzistas que estudar a música branca clássica européia era uma ameaça ao feeling tão característico da música negra. Muitos, enquanto Miles estudava Stravinsky na Juliard School, se recusavam a ouvi-lo falar dos compositores clássicos, e até mesmo de compositores populares mais antigos. O jazz vivia sua era de ouro, mas para Miles – expoente dessa era – “a música não tem períodos, não deve ter divisões, não deve seguir nenhuma linha da história: música é música.”

Já o livro sobre o Beethoven, escrito pelo premiado Edmund Norris, começa de uma maneira incrível: uma vez, um famoso dramaturgo britânico conversava com uma feminista radical e lhe perguntou que conselho ela daria para uma jovem muito pobre que tivesse engravidado pela quarta vez, tendo perdido dois filhos anteriormente, e que tivesse um marido alcólatra e violento. A feminista não titubeou: “diria-lhe que acabasse com a gravidez imediatamente.” O dramaturgo então responde: “você teria matado Beethoven.” Para mim, a dramaticidade deliberada de tal anedota não diminui o valor de sua moral: a música tudo supera.