Letras para o Ludov

Comentei com o Habacuque um dia desses que desconfiava ter ficado mais burro esse ano que passou (já passou?). E muito adequadamente, faltam-me as explicações precisas para isso. É apenas uma impressão, uma conclusão daquelas a que se chega sem caminho certo.

Devo essa impressão – fato ou não – a um problema sério que é pensar no ser humano dividido entre razão e emoção / cabeça e coração. Eu que adoro mergulhar nos dois, mas que há tempos vinha tendo o coração bem ancorado para que a cabeça pudesse aprontar das suas e alçar vôos maiores, ou ao menos seus saltinhos por aí, vi de repente que minha âncora é que estava viajando pelos espaços, e minha cabeça ainda assim não foi páreo para a alçada. E desse vôo orbital de que meu coração andou ou anda desfrutando, enxerguei ao longe minha cabeça se esvaziando a cada nova atmosfera encontrada, minha mente rarefeita e sem noção da defasagem já em curso.

Agora, pressupondo que aceito essa cisão intelecto/sentimento – o que não é totalmente verdade – eu forçosamente me vejo enjaulando de volta o coração, para poder tratar da minha mente, sopinha na boca, algumas vezes por dia. Pegar na mãozinha da coitada, mostrar uma ou outra idéia mais arrojada, tomando o cuidado para não afugentar a pobre, como trataria um vira-lata arisco. E enjaulo os sentimentos também por outro motivo: no momento, temo-os.

O que isso tem a ver com o LUDOV, para os mais perspicazes ou atentos, é que pela primeira vez pensei que o melhor para as novas letras é adiar sua vinda à esfera terrestre. Porque não quero limitá-las pela minha sensação de burrice, que espero temporária.  Tampouco as quero tomadas pelo meu coração enjaulado e cabreiro que nem bicho acorrentado. Pensei em levarmos adiante as músicas, melodias e arranjos para o disco novo, para num momento futuro e mais equilibrado pensar nas letras, e ter a cabeça e o coração novamente de mãos dadas trabalhando nelas. Ou a cabeça e o coração lado a lado trabalhando nelas com as mãos livres. Ou a cabeça um pouco acima do coração, anatomicamente mais correto, mas ambos trabalhando juntos e com as mãos livres nas letras. Ou com uma das mãos livre e a outra segurando uma caneta. Ou com as duas ocupadas teclando.

Mas isso pode ser difícil e…. bem…..errr…. burro. E isso sou só eu. Porque Habacuque e Vanessa, e também o Chapolin, podem querer já expor umas letras ao mundo, e aí para acompanhar a inteligência intacta deles vai ser um deus-nos-acuda aqui na minha cachola, e uma reunião de emergência solene e profunda tomará lugar no meu peito.